Pesquisa

Diagnóstico de Empreendimentos Culturais da Maré

Pesquisa de práticas artísticas e culturais da Favela da Maré

Introdução

O propósito da pesquisa Território inventivo foi promover o reconhecimento de práticas artísticas e culturais presentes na favela da Maré, identificando o seu potencial de criação e as possibilidades de difusão das ações na Maré e na Cidade do Rio de Janeiro.

Para além das práticas inventariadas – a partir de entrevistas com 120 realizadores culturais – foram também observadas as condições de difusão e fruição onde os sujeitos realizadores encontram com seu público: o território em uso pelas práticas artísticas e culturais.

De natureza coletiva em sua construção, a cultura é comunicação entre sujeitos e destes com territórios socialmente usados. Enfatiza-se que são as trocas materiais e simbólicas que tornam os territórios permeáveis à visitação do outro diferente. São encontros que conduzem à circularidade de produtos, de práticas e de imaginários que enriquecem a sociabilidade urbana entre sujeitos socais.

E este modo de encontro que faz da Maré (conjunto de 16 favelas, com 140 mil habitantes) um território de inventividade de estéticas populares que, na ausência de equipamentos públicos e privados de maior porte de público, faz de suas praças, ruas, becos, muros, lajes e bares, locais de cenas musicais diferenciadas (de samba, forró, rock, hip hop, charme e funk), de experimentações teatrais, de exibição de produtos visuais, festas, bailes, grafitagens. Estamos diante, sem dúvida, de um território inventivo de arte e cultura.

Metodologia

A pesquisa em destaque consistiu na aplicação de entrevistas estruturadas para identificação de práticas artísticas e culturais, definidas em classificações de grandes grupos de registro: música; artes cênicas (dança, teatro, circo, produção de cenários); artes visuais (fotografia, escultura, vídeo, desenho, gravura); cultura popular (artesanato, culinária, capoeira); audiovisual (cinema, vídeo, cineclube); literatura (poesia, cordel, romance, novela); esporte; moda; atividades formativas; grafite; espaços de sociabilidade e cultura (restaurantes, bares, lan houses, praças). Cabe salientar, entretanto, que a ordenação das atividades em grandes grupos não limitou as identificações específicas em cada expressão artística e cultural presente nos territórios em estudo, buscou-se também incluir ações no campo individual e de grupos sem uma formalização institucional dada.

O instrumento de pesquisa além de localizar autores e espaços de realização de arte e cultura também abrigava itens das condições de produção, modo de organização, recursos de financiamento, público envolvido e inserção no território das ações propriamente ditas. Foi possível, portanto, construir um quadro mais amplo de informações para a análise de situação da
produção artística e cultural associado ao mapeamento de registro de atividades e seus autores em suas territorialidades de acontecimentos.

As informações obtidas permitiram construir um inventário de organizações que atuam na arte e na cultura em comunidades na Maré com a seguinte classificação: identificação, tempo de existência, frequência das atividades, número de componentes, público alvo, formas de financiamento, locais de realização e principais dificuldades que as mesmas enfrentam para realizar suas ações. Com este inventário, observamos a institucionalidade dos espaços de realização das práticas, a saber: 1. Organização não governamental; 2. Organização informal da sociedade civil; 3. Instituição pública; 4. Instituição Privada; 5. Artista Individual; e, 6. Instituição Religiosa.

Quanto às expressões culturais, essas foram classificadas em grandes grupos, respeitando ao máximo as suas especificidades: audiovisual (cinema, vídeo, rádio); artes visuais (pintura, escultura, gravura), literatura; música; dança, teatro; grafite; moda e gastronomia, artesanato, culturas de tradição (capoeira, jongo, tambor de crioula, folia de reis) e espaços de sociabilidade (cineclubes, clubes, escolas de samba, praças, ruas, bares, lan houses).

Principais Resultados

No que diz respeito à localização e à distribuição geográfica das atividades podemos perceber que a maior parte das práticas se encontra predominantemente na comunidade de Nova Holanda (25,0%) e no Parque União (18,3%), seguidas da Vila do João e do Morro do Timbau. Merece registro que as comunidades originadas de conjuntos habitacionais apresentem reduzidas práticas culturais (Vila Pinheiro, Nova Maré, Conjunto Pinheiro, Conjunto Esperança).

Dois motivos principais podem explicar o quadro geográfico de acontecimentos culturais. O primeiro deve-se ao fato que algumas comunidades possuem maior presença e atuação de instituições e organizações da sociedade civil que trabalham com arte e cultura, traduzindo a multiplicação e continuidade de ações em seus territórios. Outra explicação possível deve-se á própria dimensão geográfica das formas de morada na Maré. Os espaços produzidos pelas próprias comunidades, ao longo de gerações, apresentam oportunidades de encontro mais amplas e diversificadas, traduzindo usos intensos de becos, ruas, praças e lajes para práticas culturais, de esporte e lazer. O mesmo não se pode afirmar dos “espaços planejados” construídos sob a forma de conjuntos habitacionais cujas formas restringem a convivências de usos sociais. Podemos concluir, então, que o modo de apropriação e uso do território se torna decisivo para práticas culturais em favelas.

No que concerne às formas e processos de organização da produção de arte e de cultura, é notável o destaque para as organizações da sociedade civil como recurso e abrigo de criação e fruição. Em contrapartida as instituições públicas e privadas pouco se fazem presentes no território quando se trata da produção cultural propriamente dita. Marca expressiva é a presença de artistas, reunidos em coletivos ou mesmo em ações individuais.

Considerações Finais

Reconhecer que a escala local da invenção e fruição da cultura é fundamental não significa afirmar uma estabilidade ou permanência de práticas sociais, sobretudo porque o território de sua habitação não é um recorte de chão fechado em si mesmo e com fronteiras absolutamente rígidas ou impermeáveis. Vivemos em uma imensa metrópole como a do Rio de Janeiro e imersos em uma cultura urbana mundializada. Todavia, esta mesma cultura se faz e refaz nas diferenças de experiências de ser-no-mundo.

Por isso é indispensável remeter ao território para aprender a cultura e a arte como invenções de vivências que estabelecem intensidade diversas relações de troca de ideias, de valores, de prática, de narrativas, técnicas e de objetos. É o território um universo de abrigos da diferença de vidas socialmente construídas. Ou seja, a construção de uma ordem de proximidades, de afetividades e de conflitividades que fazem a cultura assumir uma geografia plural de ações e intenções humanas. Esta é, sem dúvida, a senha de constituição de territórios inventivos.

Em nossa pesquisa foi possível identificar um catálogo vívido de múltiplas linguagens, estilos, tradições e inovações na Favela da Maré como expressão da sua riqueza cultural e da própria cidade do Rio de Janeiro. Apesar de todas as limitações impostas pela desigualdade social que se reflete nas condições de criação e vivência da arte e da cultura, observamos o uso inventivo do território na geração de produtos culturais e artísticos por parte de coletivos e indivíduos abrigados ou não em instituições.

É preciso e decisivo, compreender a produção estética na Maré como um movimento de auto-apresentação por parte de seus criadores individuais e coletivos, permitindo a criação de tessituras de encontros virtuais e presenciais que inauguram táticas de visibilidade sociopolítica e demanda de direitos, sobretudo por parte dos jovens. Em uma imensa favela como a da Maré, as vivências artísticas e culturais assumem a qualidade de uma experiência política de afirmação de si com outros diferentes.

No que concerne à democratização da produção e fruição cultural, o mapeamento cognitivo realizado oferece um retrato amplo das atividades culturais e artísticas que contribui para uma efetiva formulação e execução de políticas públicas, não só na Favela da Maré, mas devido a sua qualidade conceitual e metodológica, para outros territórios populares da cidade do Rio de Janeiro.

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